O vento também transforma a terra:

Wind turbines across Brazil’s semi-arid Sertão


Como a expansão das energias renováveis está redesenhando a paisagem brasileira? A transição energética também é uma transformação territorial

Pesquisa publicada em setembro de 2026 revela associações entre a implantação de empreendimentos eólicos e solares, a expansão urbana e as mudanças no uso da terra. Os resultados ampliam o debate sobre planejamento territorial e sustentabilidade no Semiárido brasileiro.

A transição energética costuma ser apresentada como uma das principais respostas à crise climática contemporânea. A substituição progressiva de fontes intensivas em carbono por tecnologias renováveis constitui uma estratégia importante de mitigação das mudanças climáticas. Entretanto, existe uma dimensão frequentemente secundarizada nesse debate: a produção de energia, independentemente de sua fonte, envolve apropriação do espaço, infraestrutura e transformações nas relações entre sociedade e natureza.
No caso da energia eólica, os aerogeradores representam apenas a face mais visível dessas transformações. Estradas de acesso, plataformas de montagem, subestações, linhas de transmissão e estruturas de apoio integram sistemas técnicos que modificam a configuração e o funcionamento dos territórios.
Essa questão adquire particular relevância no Semiárido brasileiro, onde grandes empreendimentos energéticos compartilham espaço com comunidades rurais, atividades agropecuárias, ecossistemas de Caatinga e distintas formas de ocupação territorial.
Mas até que ponto a expansão das fontes renováveis está associada às mudanças na paisagem desses municípios?
Uma investigação científica publicada recentemente apresenta evidências relevantes para aprofundar essa discussão. Seus resultados não autorizam respostas simplistas, mas demonstram por que a avaliação ambiental da transição energética precisa ultrapassar os limites físicos dos empreendimentos.

Uma pesquisa brasileira com abrangência territorial

Publicado em 25 de setembro de 2026, no periódico Regional Environmental Change, o artigo Land transformation driven by wind and solar development in Brazilian municipalities reúne pesquisadores vinculados a instituições como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), a Universidade de Manchester, a Universidade Federal de São Paulo e a Universidade Federal do Rio de Janeiro. A investigação, liderada por Felipe Husadel Poyer, examina as relações entre a implantação de grandes empreendimentos eólicos e fotovoltaicos e as alterações do uso e da cobertura da terra em municípios brasileiros (Poyer et al., 2026). O diferencial da pesquisa está na escala espacial escolhida.
Enquanto muitos estudos concentram suas análises nas áreas diretamente ocupadas por parques energéticos, os autores investigam as transformações observadas no conjunto dos municípios que receberam essas instalações.
Essa mudança de perspectiva permite considerar processos potencialmente associados à implantação de grandes infraestruturas, incluindo expansão urbana, alterações de atividades produtivas e reorganização espacial.
O objetivo, portanto, não consiste apenas em identificar a superfície ocupada pelas turbinas, mas em examinar como a implantação das fontes renováveis se relaciona temporalmente com mudanças territoriais mais amplas.
Trata-se de uma contribuição importante para a Geografia da Energia e para os estudos interdisciplinares sobre as relações entre infraestrutura, desenvolvimento regional e sustentabilidade ambiental.

Como os pesquisadores investigaram a transformação da paisagem?

A pesquisa analisou 129 municípios brasileiros que possuíam empreendimentos de geração centralizada eólica ou solar integrados ao Sistema Interligado Nacional até dezembro de 2022.
Desse conjunto, 92 municípios abrigavam exclusivamente usinas eólicas, 31 possuíam instalações exclusivamente fotovoltaicas e seis reuniam as duas tecnologias.
O período investigado compreendeu 2000 a 2022, permitindo comparar séries históricas anteriores e posteriores ao início da operação dos empreendimentos.Para identificar as mudanças territoriais, os pesquisadores utilizaram dados do projeto MapBiomas, processados por meio da plataforma Google Earth Engine, combinados com informações da ANEEL, do Operador Nacional do Sistema Elétrico e do IBGE.
Foram examinadas diferentes classes de uso e cobertura da terra, incluindo formações vegetais, agricultura, pastagens, áreas urbanizadas e outros tipos de cobertura.
Metodologicamente, o estudo empregou correlação de Spearman, testes de significância estatística, análise de tendências de Mann-Kendall e testes de causalidade de Granger.
Este último procedimento merece uma ressalva: a chamada causalidade de Granger identifica se uma série temporal oferece informação preditiva sobre outra. Isoladamente, não demonstra que determinado empreendimento provocou uma transformação ambiental.
Os municípios também foram agrupados segundo bioma, população, renda, unidade federativa e tecnologia energética, permitindo examinar diferenças entre contextos territoriais.

O que os resultados revelam?

Um dos resultados mais expressivos é a distribuição geográfica da amostra: 100 dos 129 municípios, equivalentes a 77,52%, estão inseridos no bioma Caatinga.
A concentração evidencia a importância do Nordeste semiárido para compreender as transformações territoriais associadas à expansão das energias renováveis no Brasil.
Entre os principais resultados apresentados pelos autores, destacam-se:

Entre os principais resultados apresentados pelos autores, destacam-se:

  • Correlação positiva de 0,99 entre a implantação de empreendimentos renováveis e a expansão de áreas urbanizadas, considerando a análise agregada.
  • Correlação positiva de 0,95 para a expansão agrícola.
  • Correlação negativa de -0,97 para a classe de formação savânica.
  • Associação estatística entre expansão urbana e implantação de empreendimentos em municípios de pequeno e médio porte.

Esses coeficientes descrevem relações entre séries temporais; não representam percentuais de expansão nem parcelas diretamente causadas pelas usinas.
Os pesquisadores também registraram, na análise agregada, redução de 8.908 hectares na classe de formação savânica e expansão de 8.709 hectares na classe agrícola entre 2000 e 2022. Essas alterações não podem ser integralmente atribuídas aos empreendimentos energéticos.
A análise específica dos municípios com instalações eólicas apresentou correlações positivas com áreas urbanizadas (0,99) e agrícolas (0,79). Entretanto, os resultados dos testes de Granger não foram consistentemente positivos, reforçando a necessidade de prudência causal. Outra descoberta relevante envolve o porte demográfico dos municípios.
Os autores identificaram associações mais evidentes entre expansão urbana e empreendimentos renováveis em localidades pequenas e médias do que nos maiores centros urbanos.
Essa diferença é ilustrada pela comparação entre Pedra Grande, no Rio Grande do Norte, e Juazeiro, na Bahia.
Em Pedra Grande, a expansão urbana observada durante a implantação da infraestrutura eólica apresenta proximidade temporal com o desenvolvimento energético local. Já em Juazeiro, o crescimento urbano não apresentou relação igualmente evidente com a implantação das usinas solares investigadas.
Esses exemplos mostram que os efeitos territoriais associados às infraestruturas dependem das características anteriores de cada município.

A paisagem é mais do que uma superfície ocupada

A principal contribuição do artigo está em demonstrar que estudar a inserção territorial da energia renovável exige ampliar a unidade de análise.
A implantação de aerogeradores não constitui apenas uma intervenção localizada. Ela se integra a redes de transporte, circulação de trabalhadores, relações fundiárias e atividades econômicas preexistentes.
Contudo, o estudo também apresenta limitações importantes.
Sua escala municipal não permite identificar precisamente quais parcelas de vegetação foram suprimidas pelas obras ou distinguir todas as transformações diretamente provocadas pelas usinas daquelas associadas à agricultura, urbanização e outros processos históricos.
Além disso, embora publicado em 2026, seu recorte empírico termina em 2022. Portanto, não descreve integralmente as transformações ocorridas nos anos seguintes.
Essas limitações não invalidam a contribuição científica. Pelo contrário, apontam caminhos para pesquisas capazes de integrar sensoriamento remoto de alta resolução, análise fundiária, dados socioeconômicos e trabalho de campo. A dimensão territorial também se relaciona à justiça energética.
Klingler et al. (2024), em pesquisa publicada na Nature Sustainability, investigaram processos de apropriação e controle de terras associados à expansão eólica e solar no Brasil. Seus resultados evidenciam que tecnologias de baixo carbono podem coexistir com disputas fundiárias e concentração do controle territorial.
Em outra perspectiva, Milanez e Siqueira-Gay (2026) analisaram a composição racial de setores censitários vinculados à localização de empreendimentos eólicos em seis estados nordestinos. Os autores identificaram desigualdades espaciais que justificam maior atenção aos processos de consulta, participação e justiça ambiental.
É necessário destacar que esses trabalhos examinam dimensões distintas. O artigo de Poyer e colaboradores não demonstra, por si só, deslocamento populacional, racismo ambiental ou expropriação de comunidades.
Sua contribuição consiste em identificar padrões territoriais que precisam ser investigados também por essas perspectivas.

O que a pesquisa significa para o Semiárido baiano?

A Bahia possui posição expressiva na amostra investigada: 33 municípios, aproximadamente 25,6% do conjunto analisado.
Para compreender a expansão eólica no Semiárido baiano, os resultados sugerem uma agenda de investigação que considere simultaneamente a materialidade das instalações e as relações sociais constituídas anteriormente à chegada dos empreendimentos.
A abertura de estradas, por exemplo, pode favorecer deslocamentos e serviços, mas também produzir fragmentação de habitats, pressão sobre áreas de vegetação nativa e alterações nas condições de circulação das comunidades.
Da mesma forma, a presença de novas atividades econômicas pode gerar oportunidades de trabalho sem necessariamente assegurar distribuição equitativa dos benefícios.
Essas possibilidades devem ser examinadas empiricamente, não presumidas como consequências universais.
Nesse sentido, a pesquisa de Borba, Sousa e Pfenninger (2025), publicada na One Earth, oferece uma contribuição complementar: seus cenários de planejamento energético indicam que é possível reduzir conflitos com áreas prioritárias para conservação por meio de escolhas locacionais e políticas territorialmente integradas.
A articulação entre esses estudos aponta para uma questão decisiva: a sustentabilidade da transição energética não depende somente da fonte utilizada, mas também dos critérios de localização, das formas de governança e das consequências socioecológicas de sua implantação.
No Semiárido baiano, isso exige atenção particular às características da Caatinga, aos usos tradicionais da terra, às condições fundiárias e à participação efetiva das populações envolvidas.

Considerações finais: descarbonizar não significa dispensar o planejamento territorial

O estudo de Poyer et al. (2026) amplia a compreensão científica das relações entre expansão energética e mudanças na paisagem brasileira. Seus resultados indicam associações relevantes entre a implantação de empreendimentos renováveis e transformações do uso e da cobertura da terra, especialmente em municípios menores e em áreas da Caatinga.
Entretanto, a interpretação dessas evidências exige distinguir correlação, precedência temporal e causalidade efetiva.
Ao defenderem a necessidade de “bottom-up planning approaches” — abordagens de planejamento construídas de baixo para cima, em tradução nossa —, os autores enfatizam a importância de incorporar as realidades locais às decisões sobre infraestrutura energética (Poyer et al., 2026, resumo).
Essa orientação possui consequências importantes para o licenciamento ambiental, o planejamento municipal e a formulação de políticas públicas. Não basta avaliar isoladamente a área ocupada por turbinas e estradas. É necessário examinar impactos indiretos, processos cumulativos, desigualdades territoriais e condições de participação social.
A questão central não é opor energia renovável e conservação ambiental, mas construir instrumentos capazes de compatibilizar descarbonização, proteção ecológica e justiça territorial. A transição energética precisa ser avaliada também pelo território que produz. Se a energia eólica contribui para enfrentar uma crise climática global, como assegurar que sua implantação não aprofunde vulnerabilidades ambientais e desigualdades sociais nos territórios que tornam essa transição possível?


Referências científicas

Artigo central analisado

POYER, Felipe Husadel et al. Land transformation driven by wind and solar development in Brazilian municipalities. Regional Environmental Change, v. 26, artigo 203, 2026. Publicado em: 25 set. 2026. DOI: https://doi.org/10.1007/s10113-026-02694-9.

Referências complementares

BORBA, Paula Conde Santos; SOUSA, Wilson Cabral de; PFENNINGER, Stefan. Land conservation and large-scale renewable energy systems are simultaneously possible in Brazil. One Earth, v. 8, n. 11, artigo 101520, 2025. DOI: https://doi.org/10.1016/j.oneear.2025.101520.

KLINGLER, Michael et al. Large-scale green grabbing for wind and solar photovoltaic development in Brazil. Nature Sustainability, v. 7, p. 747–757, 2024. DOI: https://doi.org/10.1038/s41893-024-01346-2.

MILANEZ, Bruno; SIQUEIRA-GAY, Juliana. Just Transition? Environmental Racism and Wind Energy in Brazil. Environmental Justice, publicação antecipada online, 7 maio 2026. DOI: https://doi.org/10.1177/19394071261445833.

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